terça-feira, 1 de abril de 2008

LEMBRANÇAS DE MINHA AVÓ


Nunca consegui decifrar o segredo que minha avó tinha nas mãos. Tudo que ela cozinhava era gostoso. Comer sua comida era como sorver sonhos. O arroz dela, meu Deus, como ela conseguia colocar aquele cheiro nele. Era um cheiro de alho com pimenta, sem que ela usasse nenhum dos dois. E era mais branco do que neve. E o segredo dos segredos era que ela só usava gordura de porco e a comida ficava leve, e não era enjoada, e agente comia, e queria mais, e não tinha mais. Ah, então eu faço mais, dizia. Mesmo os mais “enjoados” não botavam defeito. Simplesmente porque não tinha. E o arroz ficava tão soltinho que um ventinho à-toa podia levar.

Mas tem mais. O feijão de minha avó. Era inteiro, cheiroso. Quando ela o afogava, enchia a cozinha com um cheiro misturado de feijão, carne, cebola e torresmo. E não era bacon não, era tempero mesmo. E mesmo inteiro, o feijão era macio. E a cor dele! Era um roxo tão bonito que só podia ser de gostosura. Nunca descobri que tempero era aquele.

E o ovo que minha avó fritava. Grande, oleoso, brilhante, amarelo como ouro. Cobria toda a frigideira. Ela o fazia como se fosse o prato mais chique do mundo. Feito por ela, parecia um pedaço do céu, delícia que Deus ensinou só pra ela e jogou a receita fora.

Ela também fazia uma couve que era brincadeira!!! Apanhava na hora, no canteiro em que ela mesmo plantava. E era sempre couve rasgada, verdinha. E era só ela por no fogo que a vizinhança toda vinha “filar” um pouquinho da couve rasgada da Dona Geralda. Nunca mais vi couve assim.

Era assim a comida de minha avó: maravilhosa e simples. Mas ninguém conseguia imitar. Nem minha mãe cozinhava igual. E olha que minha mãe era uma fera na cozinha, quitandeira de primeira, pegava qualquer um pela boca. Mas arroz, feijão, couve e ovo iguais aos da minha avó nem minha mãe fazia. Nem infância igual a minha!!!

Chico Teixeira

segunda-feira, 17 de março de 2008

Trecho do poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
— Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazia por lá?
— Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar:
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
— Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
— Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
— Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre;
que mais fazia por lá?
— Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavradas
pela seca faca solar.
— Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
— Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
— Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
— Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
— E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
— E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
— De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
— E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
— Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

AMIZADE


Esperamos sempre mais do amigo.

Que ele compreenda nossa tristeza,

nosso mau humor, nossa angústia e insatisfação.

Sempre esperamos que ele nos acolha.

Sempre queremos que ele nos procure.

Sempre pedimos que ele nos escute

e nos conte todos os seus segredos,

dê-nos toda sua atenção.

Esperamos sempre mais do amigo,

porque para nós ele é mais: mais legal,

mais companheiro, mais inteligente,

mais bonito, mais bacana,

mais esperto, muito mais amigo

e muito mais irmão.

Para nós o amigo não tem o direito

de sumir assim, de repente.

Mudar sem deixar endereço, é inimaginável.

Esquecer nosso telefone, é imperdoável.

Não lembrar de nosso aniversário, nem pensar.

Porque a amizade verdadeira nunca deixa dúvidas.

E se deixa, é por uns segundinhos apenas,

que nem dá tempo pra ela se acabar.

Porque a amizade de verdade não tem descanso.

E se tem, é bem curtinho,

o suficiente pra a saudade chegar.

Chico Teixeira

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

SAUDADES


Tenho saudade de lampiões e suas luzes de lusco-fusco criando vultos e sombras, mais escondendo do que iluminando os pecados na noite.


Saudade de fogão de lenha e broa de fubá, de canto de galo às quatro da manhã e de cachorro latindo no portão.


Saudade de bondes e sua marcha lenta, como que respeitando o caminhar da vovó, acompanhando o balanço da colegial e esperando o velhinho embarcar.


Tenho saudade de
janelas abertas e portas semi-cerradas, jardins em rosa, árvores nas ruas, sombras nas calçadas e gente a namorar.


E tenho saudade da poeira da estrada tortuosa que seguia fiel às margens do rio, como se abdicasse de seu próprio destino ou este fosse “o que o curso do rio mandar”.


Tenho tanta saudade do barulho da ponte de madeira, do rangido da porteira e do canto do carro de boi!


Saudade matadeira de gente antiga andando devagar, como se a terra fosse algo sagrado ao qual devessem pedir perdão e nem pisar.

Saudade avassaladora de gente calma como já não há. Gente que não falava, sussurrava, como se Deus as estivesse ouvindo e seu falar condenasse, como a um atentado, um sacrilégio, um pecado mortal.

São saudades intensas, imensas, que pesam como chumbo em meu coração. Lembranças perdidas de coisas que parecem, nunca conheci, sons que nunca ouvi, lugares que nunca senti, gente com quem nunca convivi. Saudades de um mundo, que parece, nunca existiu.

Chico Teixeira

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Ao Rubem Braga


Reli, no fim de semana, algumas crônicas do Rubem Braga. Fiquei com vergonha por tudo quanto escrevi até hoje. Sempre me achei habilitado a ser algo parecido com um escritor. Para mim, bastava pegar a caneta e tudo fluiria. Não desconfiava que a fonte do grande escritor, e mesmo do mais medíocre, é o trabalho. O esforço cotidiano é que dá a ele condições de retratar a vida como ela verdadeiramente é. O Rubem - vejam só que intimidade – começou cobrindo a Segunda Guerra. Vejam só, tornar-se escritor contando histórias tão tristes, escrever sobre companheiros mortos em campo de batalha. Como deve ter sido pesado para ele enviar esse tipo de notícia para seu país. E quantas vezes ele deve ter pensado em mandar uma de suas crônicas, bem diferentes daquela perversidade toda. E, no entanto, as baixas ou vitórias no combate eram o que interessavam, doesse a quem doesse, mesmo nele.
Certamente, o Rubem Braga se orgulhava de ser um soldado,
estar no front, servindo seu país. Devia olhar sua farda, seu fuzil, sua botina, seu cinturão carregado de munição, suas granadas com as quais podia explodir e pensar: "como sou poderoso, posso matar, fazer prisioneiros, destruir casamatas, arrebentar esconderijos, bater, humilhar, dilacerar". E, na guerra, só existem o nosso lado e o do inimigo. E aí, todas as brutalidades são justificadas. Tudo pela vitória! Até do Rubem, certamente, embora tenhamos certeza de que ele não cometeu uma sequer. Mas se ele estava na guerra, poderia avançar, tomar a casa do inimigo, roubar sua comida, sua mulher, seus filhos, pais, irmãos. O limite, a fronteira entre a vileza e a dignidade dependia da capacidade dele, de sua força. Com sua faca ele poderia arrancar o coração do inimigo, queimar seus sonhos, um a um, implodir sua esperança, desmanchar seus castelos, secar a fonte de sua emoção. E, se isso ahasse isso pouco, poderia tirar-lhe a sobriedade, a sensibilidade, a consciência, a lucidez, a razão. E fazer dele um louco, desatinado, endemoninhado, a uivar desesperadamente feito um animal sem dono, um espírito purgando entre o céu e o inferno, um corpo a procurar a alma e o sangue entre os cadáveres dos irmãos. É, o Rubem devia pensar sobre isso. Estava em uma guerra, era impossível que, com tanto sangue ele não passasse por essas tentações.
Mas eu estava dizendo da vergonha de achar que sou um escritor. Como posso me atrever a tanto com um Rubem Braga em minha estante! Ele, dono de tão lindas crônicas, e nunca se importou de ter começado a escrever sobre mortes, gente trucidada ou para sempre marcadas pela guerra. E a guerra tem memso o poder de fazer todos iguais: escritores, analfabetos, doutores, jornalistas. Até
Hitler, um medíocre pintor se transformou no mais poderos monstro da história. E produz também muito herói incógnito. Certamente outros cronistas, outros poetas, outros pintores.
Produz também novos países, liberta colonizados, une e desune povos, cria filhos sem pais, pais sem filhos, mulheres sem maridos e homens sem mulheres. Também inventa tratados, que na próxima guerra não valerão mais nada. A guerra é tão absurdamente mágica, que inspira best sellers
que se transformam em filmes e fazem o mundo chorar: Platoon, Por quem os sinos dobram, Apocalipse Now, Acorda Vietnam, A lista de Schindler... Maravilhas inigualáveis.
A guerra é assim, controvertida. Alguns dizem que são necessárias. Para mim não. Talvez ela tenha contribuído com a literatura do Rubem, porque não dá pra negar que é uma baita experiência. Às vezes penso se o ele seria este mesmo cronista se não tivesse participado da guerra. Mas que bobagem, é claro que sim, um homem como ele!? Talvez, se não tivesse vivido essa experiência, trocaria a farda pela camiseta e uma bermuda. Aí, poderia ter sido correspondente no Hawaí. Seria um outro front, uma outra guerra e, em vez de inimigos, falaria de surfistas. Em vez de soldados, turistas. Em vez de trincheiras, bares. Em vez de sangue, falaria de mar. Claro, suas crônicas não perderiam o brilho, a leveza, a emoção. Ele continuaria sendo esta monstruosidade de cronista. E eu continuarei com minhas historiazinhas medíocres, invejando o Rubem cada vez mais, arrumando desculpas para cometer meus poemas, minhas crônicas, minhas críticas. Eu, que só conheço as guerras glamourosas de Hollywood com seus cenários de eucatex, pedras e montanhas de isopor, armas de plástico e balas de borracha, aeromodelos prateados cruzando um céu pintado no teto e mortos tombando solenes e teatrais cobertos de sangue de catchup.

Chico Teixeira

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Abaixo


Abaixo todas as crises: de identidade, existenciais e ministeriais. Abaixo os que querem governar os corações, as emoções e as sensações. E sim à instantânea explosão, à espontânea combustão, ao sobre humano tesão.

Abaixo o irracional, o internacional, o anti-gripal, o artificial. Abaixo o original, o moderno, o novo, o atual. E sim ao suor e ao sal.
Abaixo os ofícios, os carimbos, os selos e todas as marcas. Abaixo todos os símbolos, todos os rótulos, todos os títulos.

Abaixo o baixo astral e a troca do bem pelo mal. Abaixo a incoerência, a abstinência e a falsa decência.

Abaixo o desapontamento e a decepção, pois a vida tem mesmo o aperto no ônibus, a contramão. Ela é assim, de pé em pé, mão em mão, sim em sim, não em não.

Abaixo a estagnação, o verbo estar, estou, estão. Abaixo a carinha de anjo, o carrinho de anjo, a asinha de anjo, o arzinho de anjo. E não ao adeus definitivo e sim ao “ciao”.

Abaixo as escrituras, sagradas e consagradas, malditas e satânicas, latinas, eruditas e clássicas. E sim às populares, singulares e de cordel. Abaixo as línguas ininteligíveis dessa babel.
Prefira o seu próprio idioma, a fala que soma e não assalta, não avança, e não nos deixa em coma.

Abaixo os sons de aviões, de jumbos e suas aero-explosões. E sim a todas as músicas, dessas que sempre se ouviram, que sempre existiram, sem muitas colcheias ou breves, cantadas em “fá”, que é melhor.

Abaixo toda insatisfação entre essa e outra nação. Abaixo esse país, o astral desse país, a desolação desse país. Deixa lá esse gigante e sua madorna renitente e constante.

E chega de tantos “ais”, de tantos menos e mais. Chega de gente esquecida, escondida e ex-querida. Pois o tempo já urge e chega, e com ele o espaço, o segundo, o minuto e a hora: e adeus bonança.

E abaixo a tela, que já não mais suporta as nuanças; o livro, que já não quer mais redundâncias; e a lógica, não quer mais inconstâncias.

Abaixo as ciências, humanas e desumanas. E que reinem todas as artes, gregas e troianas, judias e romanas, laicas e clérigas, futurísticas e cibernéticas, normais e insanas, celestiais e mundanas, sacras e profanas. Que reine a raça humana!!!

Chico Teixeira

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O homem e a estrela



Havia um homem, em um país bem distante, que amava sua mulher mais do que qualquer a outra pessoa no mundo. Mais do que sua mãe, seu pai, seus irmãos. Mais do que a Deus. Ele amava tanto a essa mulher, que prometeu dar a ela a estrela mais linda do céu. Procurou durante muitas madrugadas. Ficava horas a fio olhando o céu. Esquecia de comer, de dormir. Não parava. Quando alguém perguntava por que ele era tão persistente, dizia que era por não poder decepcionar aquela mulher, pois significaria uma decepção ainda maior para ele próprio se não conseguisse.

Assim ficou por meses, anos, décadas e, se vida tivesse, ficaria por séculos. Nos últimos anos, a obsessão se ampliara e ele havia montado um observatório em sua casa, com telescópios das mais diversas procedências, muito caríssimos, comprados a um valor muitas vezes maior que seus ganhos, muito além de suas posses. Tudo para investigar melhor as mais distantes e reluzentes galáxias. Nada conseguiu. Tentara tanto que já conhecia todas as constelações: Ursa Maior, Ursa Menor, Cruzeiro do Sul, Aquário, Centauro, Capricórnio, Cassiopéia, Cães de Caça, Cão Menor, Cão Maior, Coroa Boreal, Coroa Astral, Cisne, Dragão, Peixe Dourado, Leão, Leão Menor, Unicórnio, Oitante, Serpentário, Órion, Pégasus Cavalo Alado, Perseus, Serpente, Sextante, Touro, Triângulo Astral, Tucano, Virgem Andrômeda e outras e outras e outras, chegando a conhecer, em detalhes de altíssima complexidade, em níveis sofiscadíssimos, todas as 88 constelações reconhecidas internacionalmente pela IAU - Internacional Astronomical Union.

Nem esse vasto conhecimento o ajudou. De nada adiantou vir da ignorância completa no assunto, achando que ainda se usavam astrolábios, e transformar-se em um astrônomo de renome internacional. Nunca freqüentara oficialmente uma escola, mas dava palestras para os especialistas da Nasa, e tornou-se, a convite, professor honoris causa da IAU. Envelheceu, perdeu a força, passou a esquecer até do próprio nome. Enxergava cada vez menos e, a cada dois ou três meses, trocava seus telescópios pelos mais modernos, com lentes cem, mil vezes mais potentes. Chegava a dar dó o amor e a persistência daquele velhinho, barba branca, encurvado, quase cego, a procurar a estrela que prometera a sua amada. Àquela altura da vida, ele já nem sabia ao certo se ela ainda o esperava, se ainda estava viva, se ainda o amava. Mas ele continuava. Se alguém perguntava se não seria melhor parar aquela procura vã, pois estava já cansado e, provavelmente, aquela mulher não estava mais o esperando, ele dizia que não, pois sria uma grande decepção desistir agora, exatamente quando estava próximo de conseguir alcançar a estrela.

Continuou. Um dia, caiu em profundo sono, pendurado em um dos mais de 200 telescópios que colecionara ao longo do tempo, no observatório que construíra exclusivamente para encontrar a estrela para sua amada. Acordou muitas horas depois, mas com a sensação de que dormira meses seguidos. Estava em um lugar maravilhoso, sentindo uma felicidade indescritível, sorrindo incontrolavelmente e com o coração a saltar-lhe pela boca de satisfação. As mãos suavam, os olhos estavam encharcados e se sentia completamente impotente para pronunciar uma palavra sequer, tal a emoção. Finalmente conseguira encontrar a estrela. Finalmente cumpriria a promessa que fizera à única mulher que amara na vida. Estava tão imensamente feliz, tão retumbantemente feliz, tão definitivamente feliz, tão inexoravelmente feliz, que nem notara que estava exatamente em meio à esfuziante luz da estrela que prometera à sua amada. Estava no céu.

Chico Teixeira